A estratégia de agosto: ativismo pelos direitos dos imigrantes se aquece

A estratégia de agosto: ativismo pelos direitos dos imigrantes se aquece

Story tools

A A AResize

Print

 

English Translation


Cerca de 40 líderes de organizações em defesa da reforma da imigração foram presos, na última semana de julho, no Capitólio. O grupo estava lá como parte de um protesto, com o objetivo de pressionar os republicanos da Câmara a aprovar um projeto de reforma na imigração com um caminho para a cidadania.

Imitando os jovens imigrantes indocumentados, ou Dreamers, dos quais nove foram presos na fronteira do Arizona no início de julho, os ativistas veteranos impediram o tráfego na rua adjacente ao Capitólio, enquanto cantavam um slogan popular entre os Dreamers: “Sem documentos, sem medo!”

A ação veio um dia antes de os membros do Congresso saírem de Washington, DC, para o recesso de agosto. Ela despertou uma série de demonstrações, reuniões em prefeituras e eventos que estão sendo planejados pelos defensores dos direitos dos imigrantes durante o mês de agosto.

O objetivo, segundo Angela Kelley, vice-presidente de políticas de imigração do Centro pelo Progresso Americano de Washington, DC, é utilizar o recesso de agosto para ganhar tanta força no apoio à reforma na imigração que “quando eles voltarem, haja uma atmosfera de inevitabilidade” em torno de resolver o assunto.

“Na verdade, estou mais confiante do que já estive até hoje de que nosso movimento está pronto para vencer essa discussão [pela reforma na imigração] em agosto”, disse Kelley, em uma coletiva nacional de imprensa étnica, organizado pela New America Media.

Mulheres tomando a liderança


Wida Amir, coordenadora do programa de direitos dos imigrantes no Fórum Nacional de Mulheres Americanas da Ásia do Pacífico (NAPAWF, na sigla em inglês), nasceu no Afeganistão, e veio para os EUA aos 16 anos. Sua mãe, viúva, precisou fazer “a escolha mais difícil que qualquer um precise fazer”: pegar seus filhos e sair do país durante a invasão soviética nos anos 1980.

“A reforma na imigração é algo com que tenho uma relação pessoal”, conta Amir. “É uma missão de vida”.

As mulheres representam 51% dos imigrantes nos Estados Unidos, ainda assim, “muitas das nossas leis de imigração atuais não as incluem, necessariamente”, segundo Amir. Por exemplo, na Lei de Reforma e Controle da Imigração de 1986, os imigrantes precisavam fornecer provas de que estavam trabalhando – mas a maioria das mulheres tem empregos na economia informal, como serviços domésticos ou salões de beleza, diz. As mulheres, acrescenta Amir, também vêm aos EUA, primariamente, com vistos familiares, que têm limites e esperas que podem ser de até 20 a 25 anos em alguns países asiáticos.

A diretora do NAPAWF, Miriam Yeung, estava entre os presos no protesto no Capitólio. A organização, parte da campanha We Belong Together – que pretende trazer mais atenção ao assunto de gênero no debate sobre a imigração – ajudou a trazer centenas de mulheres líderes, de 25 estados, a uma audiência em março, realizada pela Sen. Mazie Hirono (D-Hawaii), sobre o impacto da reforma da imigração sobre as mulheres.

Líderes LGBT: esta luta também é nossa


A decisão de junho da Suprema Corte, de revogar uma provisão-chave da Lei da Defesa do Casamento (DOMA, na sigla em inglês) permitiu a estrangeiros lutar, pela primeira vez, pela legalização através de um cônjuge do mesmo sexo.

Mas, segundo Dave Montez, diretor interino do GLAAD, a decisão do DOMA é apenas o começo.
“A imigração é um assunto LGBT”, afirma Montez. Sua organização é parte de uma coalizão de cerca de uma dúzia de organizações LGBT, incluindo o Centro Nacional dos Direitos Lésbicos, a Força-tarefa Nacional de Gays e Lésbicas e a Federação da Igualdade, que trabalham pela reforma na imigração.

“A decisão da Suprema Corte impacta somente cerca de 10% dos LGBTs indocumentados nos EUA”, conta Montez.

Da estimativa de 267 mil LGBTs indocumentados aqui, somente cerca de 30 mil estão em relacionamentos binacionais. “Os outros 90% não estão… Então precisariam de um caminho para a cidadania”, diz ele. “O trabalho para os outros 90% ainda precisa continuar”.

Pressão da direita


Esse esforço pode ter encontrado um aliado improvável.

Kelley afirma que o movimento da Câmara sobre o DREAM Act sozinho já é um sinal de uma “grande mudança”. O líder da maioria Eric Cantor (R-Virginia) e o Presidente do Comitê Judiciário da Câmara, Bob Goodlatte (R-Virginia) – que, ambos, votaram contra o DREAM Act – agora trabalham em uma versão republicana do projeto.

Mesmo que o KIDS Act, como o projeto é chamado, “não faça o suficiente”, Kelley afirma que o movimento sinaliza uma mudança na postura dos republicanos sobre a reforma na imigração.
Mas uma cisão se mantém no GOP. O membro da Câmara Steve King (R-Iowa) recentemente sugeriu que muitos Dreamers seriam traficantes de drogas, enquanto Paul Ryan (R-Wisconsin) disse ao seu eleitorado, em uma reunião em prefeitura, que logo haveria um projeto da Câmara para legalizar imigrantes indocumentados.

A pressão pela reforma, entretanto, também vem de líderes das comunidades empresariais e religiosas.
Esta semana, duas cartas foram enviadas aos republicanos da Câmara, solicitando a reforma. Uma foi assinada por mais de 400 empresas de sucesso e câmaras de comércio, e a outra, por mais de 100 doadores republicanos, inclusive o estrategista do GOP, Karl Rove.

A carta dos doadores do GOP argumenta que os republicanos precisam ser vistos como atuantes na reforma da imigração, pelo bem do partido. “Os republicanos precisam ser acolhedores aos imigrantes, e serem vistos como tal. Realmente acreditamos que, com ações significativas na reforma da imigração, há uma oportunidade para os republicanos, tanto para boas políticas, quanto para a boa política”.

Comunidades religiosas também têm uma influência poderosa no GOP, afirma Kelley. Evangélicos conservadores, por exemplo, têm sido uma voz ativa para a reforma, como parte da campanha Bibles, Badges and Business (Bíblias, Crachás e Negócios), organizada pelo Fórum Nacional da Imigração.

Segundo Kelley, uma importante líder democrata do Congresso recentemente disse à sua organização que a comunidade religiosa era “mais importante que tudo” para pressionar o GOP a agir sobre a reforma na imigração.

Uma pesquisa recente da CBS, divulgada na primeira semana de agosto, descobriu que sete entre dez conservadores estão dispostos a aceitar um “caminho para a cidadania” para imigrantes com condições.
O mês de agosto, os ativistas e defensores concordam, será crítico para ver se isso acontece e se, como diz Kelley, eles podem “vencer a narrativa” sobre a reforma na imigração.

Traduzido por Tribuna